Pagar para falar

Quando decidi começar a ler o Ecologia da Joana Bértholo não sabia exatamente no que me estava a meter: iria começar a ler um livro que, se o tivesse de classificar, seria com esta palavra: potente. Será que teria de pagar muito por ela?

Joana Bértholo mostra-nos neste livro uma sociedade distópica – a nossa. A parte ficcional diz respeito ao ato de todas as pessoas do mundo terem de começar a pagar para falar. Durante esta leitura tive oportunidade de me rir, de me surpreender, de ficar chocada. A autora, em alguns momentos da narrativa (que não é linear), deixa-nos uma coletânea de coisas insólitas que aconteceram no mundo. Algumas dessas coisas eram tão estapafúrdias que acabei por ir averiguar por mim mesma do que se tratava. Simples: trata-se do mundo, muitas vezes sórdido, em que vivemos.

Falar desta e doutras formas começa a mudar a forma como as pessoas pensam, e mudar a forma como as pessoas pensam sobre o mundo é mudar o mundo.

Se eu tivesse lido este livro há uns meses atrás, não tenho dúvidas de que também o teria usado na reflexão que fiz aqui há uns tempos sobre linguagem. É muito interessante como a nossa mentalidade e modo de pensar está inteiramente ligada à nossa forma de falar. Que significados atribuímos às palavras? E quando as mudamos de contexto? E as línguas gestuais?

Esta é uma pequena aquisição para um Consumidor, mas um grande salto para o Mercado.

Aquilo que me fica mais presente na memória após a este leitura é isto: se em algum momento eu achava que era o dinheiro que controlava tudo no mundo, neste momento não tenho dúvidas: tudo se vende, tudo se compra.

Depois do choque coletivo, dos sentimentos de revolta, de um enorme vazio, da incompreensão, do ressurgir de um medo primário, incrustado e cedo, os que ficaram sobrevivem e ansiaram por rotinas. Voltar a funcionar.

Existem passagens neste livro que nos dão muito que pensar acerca do caminho que as nossas vidas, cada vez mais desumanizadas, estão a tomar. Embora tenha sido escrito antes da pandemia, Joana Bértholo quase que profetiza um grande acontecimento em que tudo se fecha, toda a gente desespera e o maior desejo é o regresso às rotinas:

Este livro fez-me questionar o sentido de várias coisas: o que é que estamos a fazer com as nossas vidas? Que sociedade é esta? Que caminho estou eu a traçar na minha vida? Será que quando o meu filho tiver a minha idade o ar ainda será respirável?

O mundo muda por dentro e por fora e a natureza humana continua sempre igual, embasbacada perante os mesmos dilemas.

Até que ponto é que já encaramos a violência de forma natural? Quanto vale a nossa privacidade quando a expomos nas redes sociais? Quanto valeria aquilo que escrevo neste blog se tivesse de pagar para o fazer? E se alguém estivesse sempre a meu lado a repetir o que eu digo para eu pudesse avaliar a forma como falo?

Se nunca leram este livro, leiam. É uma leitura que nos convida a fazer o pino para vermos as coisas de outra perspetiva.

Para finalizar, uma palavra para escrever a mente de Joana Bértholo: genial. Espero que não me saia cara.

Nota: Todas as citações deste texto são da autoria de Joana Bértholo, retiradas do livro Ecologia.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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