Grada Kilomba e George Orwell entram num bar.

As minhas últimas leituras, embora numa primeira impressão não tivessem nada em comum, acabaram por me fazer criar conexões que me surpreenderam. O que têm em comum George Orwell e Grada Kilomba? Uma profunda reflexão sobre a língua enquanto sistema de poder sobre o pensamento.

No ano passado li as Memórias da Plantação de Grada Kilomba. Este livro, resultado da tese de doutoramento desta autora/artista interdisciplinar, dedica algumas páginas à reflexão entre linguagem e pensamento. O facto de, originalmente, o livro ter sido escrito em inglês, levantou algumas questões quando se começou a tradução para a língua portuguesa.

A autora deparou-se um problema complexo quando, em português, há uma série de termos que, quer em inglês, quer em alemão, não existem; a existirem, acarretam outras questões pelo facto de, na língua portuguesa, a maioria do vocabulário estar fundamentado numa base binária: ou a palavra é feminina ou é masculina, pois as palavras neutras existem em menor número. Assim, Kilomba refere que esta tradução “é maravilhosamente elaborada, pois traduz um livro inteiro com ausência de termos que noutras línguas, como a inglesa ou a alemã, já foram criticamente desmontados ou mesmo reinventados num novo vocabulário, mas que na língua portuguesa continuam ancorados a um discurso colonial e patriarcal, tornando-se extremamente problemáticos” (p.8). Se a língua portuguesa tem como bases o patriarcado e o colonialismo, também a sociedade será construída sobre estes pilares.

Para Kilomba a língua tem “uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade (…)”, informando-nos de “quem é normal e de quem é que pode representar a verdadeira condição humana” (p.9).

Estas questões levaram-me automaticamente a George Orwell. Em 1984, o autor cria uma sociedade distópica na qual o governo totalitário tudo controla, até o léxico, criando a novilíngua. A forma como a novilíngua talhou o raciocínio das pessoas daquela sociedade releva-nos o poder que as palavras têm. Os responsáveis pelos dicionários de novilíngua tinham a responsabilidade não de inventar novas palavras mas sim de destruí-las, como afirma uma das personagens, Syme, dizendo: “estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto” (p.54/55).

Quantas vezes não nos conseguimos exprimir porque “nos faltam as palavras”? Esta é uma demonstração direta daquilo que é a relação entre linguagem e pensamento: ao não termos as palavras certas não iremos exprimir o que pensamos. Syme admite isto: “Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo de pensamento?” (p.56).

Qual o impacto que a nossa língua tem no desenvolvimento do nosso pensamento? Podemos obter esta resposta ao observarmos o processo de aquisição da linguagem por parte das crianças.

A linguagem é um sistema complexo que está associado aos processos cognitivos que nos permitem atribuir significados a códigos orais. Quando as crianças estão a aprender a falar, são várias as vezes em que não se exprimem corretamente pela falta de vocabulário. No entanto, as crianças são seres humanos criativos em potência e, quando não sabem as palavras corretas para se expressarem, inventam-nas. De acordo com Vygotsky, a linguagem tem uma importância fundamental para o desenvolvimento cognitivo e social.

O léxico importa e, por isso, ler é algo fundamental. Através da leitura aproximamo-nos das palavras e, consequentemente, dos pensamentos que lhes são inerentes. O grande objetivo da novilíngua de Orwell era precisamente, de que “todo o pensamento herético – isto é, qualquer pensamento divergente dos princípios do Socing – se tornasse literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende da palavra” (p.301/302). Desta forma, as pessoas que “viviam” em 1984 sob este sistema autocrático e ditatorial, nem sequer tinham a opção de pensar algo em oposição ao regime, pois não existiam palavras para o fazer.

Havia uma intenção de tornar a linguagem e o ato de falar, tanto quanto possível, algo independente da consciência. A título de exemplo, a palavra ciência não existia em novilíngua, pois o termo socing seria suficientemente abrangente para isso. Isto leva-me à reflexão sobre a associação de uns termos a outros. De acordo com Orwell, “um indivíduo que crescesse tendo por único idioma a novilíngua nunca descobriria que igual tivera outrora a acepção secundária de <<politicamente igual>>, ou que livre já significara <<intelectualmente livre>> (…)” (p.313).

Questiono-me de que formas poderá a nossa língua toldar-nos o pensamento; que vocabulário estará por ser pensando para que a língua portuguesa vá atenuando os seus alicerces patriarcais e colonialistas para que passe a ser uma língua mais inclusiva e representativa, quer no que diz respeito à conotação racista de certos termos como em relação à discriminação de género.

Uma coisa é certa: é imperativo ler. E é por isso que os livros e a cultura são um bem essencial na nossa vida.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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