Bebés nos museus?

Excêntrica. É assim que me sinto quando vou visitar algum museu com a D.. Há sempre quem estranhe, há sempre quem sorria, há sempre quem olhe com um certo ar de desdém e com uma expressão de “isto não é lugar para se trazer um bebé”. Os bebés choram e os museus querem-se silenciosos não é verdade?

Museu Gulbenkian

Os museus são ou não são para bebés? Serão estes visitantes-participantes em potência bem-vindos aos espaços? Ora, comecemos pelo básico: já visitei museus que não têm fraldário e isso transmite uma mensagem muito óbvia.

Casa da Cerca

Já visitei um museu em que a casa de banho com fraldário mais parecia uma arrecadação e, ironia das ironias, era impossível aceder com o carrinho porque existiam degraus para lá chegar e o corredor de acesso fazia parte da loja… pelo que era impossível atravessá-lo confortavelmente devido às prateleiras cheias de “recuerdos”. Devo frisar que esta casa de banho era também a que estava destinada a pessoas que se deslocam em cadeira de rodas…

Penso que, muitas vezes, só quando as pessoas têm um bebé num carrinho é que se apercebem dos problemas de acessibilidade física que existem nos espaços.

Museu do Ar

Os museus deveriam ser lugares em que qualquer pessoa se pudesse sentir bem, confortável. No entanto, falar de bebés em museus é falar de um público muito específico.

Foi o fascínio pelo desenvolvimento dos bebés que me levou, num primeiro momento, ao curso de Educadores de Infância. Foi a experiência adquirida nessa área, associada ao meu trabalho em Mediação Cultural que me tem feito desenvolver atividades específicas para essa faixa etária, quer em museus, quer em bibliotecas e outros espaços culturais. Mesmo antes de ser mãe esta já era uma área que me interessava muito e pela qual tenho imenso gosto. A verdade é que o percurso feito até aqui me tem dado a oportunidade de experimentar muito, testar ideias, ver o que funciona ou não com bebés e crianças pequenas, e de que forma se pode criar, desde muito cedo, uma relação com a instituição cultural, nomeadamente o museu.

Casa da Cerca

Será que os museus querem bebés como público? Pensar nesta questão leva-nos a outra: existirem atividades/programação específica para bebés é pensar nas famílias; é pensar nas pessoas que podem estar, por exemplo, de licença parental, e gostariam de fazer algo com o seu bebé que seja proveitoso para ambos.

Museu Gulbenkian

Sempre que concebo e dinamizo atividades para bebés tenho presente que no decorrer da mesma poderá existir uma coisa: choro. Os pais/adultos que acompanham os bebés são aqueles que mais se incomodam com isso, sentem-se constrangidos. Para mim, a existência de choro pode-me estar a ensinar que determinado gatilho que usei para captar a atenção pode ser desconfortável para para um bebé e para outro não. Durante as minhas atividades também é natural que existam bebés a mamar ou que haja interações da parte destes pequenos participantes . São estas manifestações dos bebés que constituem a base de tudo pois é nessas interações que se estabelece uma relação com o adulto, com o espaço e os objetos, traçando-se o caminho para a construção de um momento significativo.

Museu do Ar

Preparar programas específicos para bebés nos museus é preparar o futuro. É dizer às famílias que são bem-vindas e que queremos já, desde cedo, criar uma relação com os seus bebés. É fazer com que a ida ao museu faça mesmo parte da vida das pessoas e que se crie uma relação baseada, por um lado, em afetos, mas também por outro lado, na resposta a uma necessidade. E, bem vistas as coisas, é para responder a diversas necessidades que os museus existem. Que impacto poderão ter estas iniciativas? Qual a diferença que poderá fazer na vida de uma família a existência de atividades para bebés em museus? Irão esses bebés criar relações mais fortes e duradouras com as instituições? Estas são algumas das questões que me ocupam os pensamentos quando estou a criar as atividades.

Casa da Cerca

Visitar museus com a minha bebé tem sido das melhores coisas que tenho feito nos últimos tempos, quer para arejar a minha cabeça quer para lhe proporcionar outras experiências. No entanto, é muito raro ir além da visita livre, pois são muito poucas as instituições que contemplam esta faixa etária nas sua programação. Talvez esteja na hora de mudar isso.

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