Entre rabiscos e garatujas

Uma das coisas que sempre me despertou muito interesse enquanto educadora foi a forma como as crianças começam a desenhar. Atualmente, como mãe, observar a minha criança de dois anos a desenhar é dos momentos mais zen que já vivi.

Gosto de observar as escolhas do D. e não intervenho. Interessa-me particularmente a forma como muda a pega do lápis consoante o tipo de traço que faz. Trata-se de um momento quase performático: quando o meu filho desenha existe uma narrativa oral e gestual que acompanha o traço – na verdade, quando desenha, ele está a contar histórias, falando sobretudo de coisas que já viveu.

De acordo com Eurico Gonçalves, “dos 18 meses aos 3 anos de idade, a criança inicia a sua atividade gráfica: risca com o que encontra à mão sobre grandes superfícies, movimentando o braço e o corpo todo. Traça rabiscos ou garatujas, movida por impulsos instintivos e segundo as suas possibilidades psico-motoras. A amplitude do traço, a força, o vigor, a maior ou menos expansão vital e a carga temperamental devem ser observadas nestas garatujas, como forma de expressão de uma personalidade em formação” (p.46).

São várias as vezes em que, ao desenhar aviões (pois é isso que me transmite verbalmente sem que eu lhe tenha perguntado nada), ele traça o movimento do avião em voo. De seguida diz-me que o avião foi ter com a “tita” – porque tem uma tia a viver fora do país e, desde que a fomos buscar ao aeroporto no verão, todos os aviões que vemos no céu vão seguramente ter com a tia, na ideia dele.

D., 2 anos

Estes traços não foram aleatórios, foram pensados. Muitas das coisas que ele dizia enquanto os desenhava eu não compreendia mas via-o tão concentrado que decidi não fazer perguntas e deixar o momento fluir. Houve uma grande entrega neste momento, estava completamente alheado de tudo o que se passava à sua volta.

Existem outros momentos em que nos pede (a mim ou ao pai) para desenhar com ele ou para desenharmos coisas específicas. Tenho alguma relutância em fazê-lo, pois não o quero condicionar desde tão pequeno a modelos que sei que tenho dentro de mim e contra os quais combato diariamente, frutos de uma escola tradicionalista típica dos anos 90 – e que ainda hoje vigora na maioria das escolas do nosso país. No entanto, a minha “costela” de educadora opta por lhe dar várias opções da mesma coisa – da mesma forma que podemos desenhar vários tipos de casas, de carros, de cães, o mesmo acontece com as pessoas – a diversidade está presente em tudo. Não quero que seja uma criança vítima dos estereótipos nem que tenha a criatividade e a imaginação castradas – que futuramente desenhe céus amarelos, telhados de casas coloridos, nuvens roxas e por aí adiante…

D., 2 anos

A forma como usa e explora o espaço da folha em branco também me cativa: são notórias as suas tomadas de decisão face ao traço no espaço.

Não posso deixar de evocar aqui as referências de Eurico Gonçalves no livro “A Arte descobre a criança” (editado pela Raíz e de onde retirei a citação de cima), quando compara esta fase do desenho na infância com o Abstraccionismo Gestual com exemplos de trabalhos de Hartung e Lataster.

Livro “A Arte descobre a criança” de Eurico Gonçalves editado pela Raíz

Este tipo de comparações faz-me pensar no quanto a infância influencia as manifestações artísticas que vemos à nossa volta.

Outra questão que tenho vindo a observar é o interesse do meu filho pelo código escrito. Por vezes pede-me para escrever “mamã” ou “papá”, ou mesmo o nome dele, nos desenhos. Quando termino ele volta a “escrever” por cima o que me faz refletir na naturalidade com que as crianças se interessam pela escrita e nas atitudes tantas vezes desenquadradas que se têm nas escolas nos momentos de ensino da escrita.

Também tenho tido algumas conversas com os professores titulares das minhas turmas sobre a questão da letra manuscrita. Se por um lado compreendo que nela vejam valor, sob o argumento que “é uma coisa nossa e que não se devia perder”, por outro lado vejo que na grande maioria dos casos é um grande obstáculo de aprendizagem, muito devido ao facto deste tipo de código escrito não estar a par da realidade que nos rodeia: a escrita de imprensa. Quando comecei a dar aulas ao 1º ciclo era com este tipo de letra que escrevia e ainda hoje o faço; no entanto, a pedido de algumas crianças também tenho usado a letra manuscrita quando lhes quero deixar alguma referência, porque compreendo que nesta fase lhes facilite a compreensão.

O tema dos rabiscos, das garatujas e do interesse pela escrita tem ocupado uma parte das minhas leituras, pelo que futuramente, mais reflexões serão deixadas aqui.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

2 opiniões sobre “Entre rabiscos e garatujas

  1. Obrigada por me enviares mais um artigo que irei ler com atenção . Claro que irei aprender muito com ele. Um beijinho e continua sempre a ser uma excelente mãe e uma ótima profissional . Tenho muito orgulho de ter sido tua professora e de ter partilhado contigo algumas destas ideias . Agora sou eu a aprender contigo e fico muito feliz com isso. Um abraço apertadinho

    Gostar

Deixe uma Resposta para Ana Bela Baptista da Silva Cancelar resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: