Pandemias

Estive cerca de dois meses e meio em isolamento social tal como muitas outras pessoas por esse mundo fora. Ao longo deste tempo tive oportunidade para refletir sobre várias questões. A Terra continua a girar e não é por estarmos num modo de vida diferente devido ao Covid-19 que todos os problemas que tínhamos antes ficaram resolvidos. A estes juntaram-se outros. Vou então nomear aqui algumas das “pandemias” que me têm andado a perturbar os pensamentos.

Pandemia do Custo Zero

Sendo trabalhadora independente da área da cultura faço parte dos muitos freelancers que se viram com a atividade profissional suspensa, sem hipótese de trabalhar. A situação mantém-se e não me parece que vá mudar muito nos próximos tempos. Embora os museus tenham tido “ordem de soltura” a 18 de maio, nem todos abriram e, estarem de portas abertas não é sinónimo de que os serviços educativos e as atividades de mediação cultural tenham retomado a sua normalidade. A meu ver, isso está ainda longe de acontecer.

Durante o tempo de confinamento foram várias as propostas culturais gratuitas que circularam por essa internet fora e ainda bem que elas existiram. No entanto, partilho da opinião de Sérgio Machado Letria, diretor da Fundação José Saramago, no editorial da Blimunda de Maio: parece que a “gratuitidade tornou-se norma”, como se o trabalho cultural não tivesse de ser remunerado e que a partir de agora toda a cultura seria oferecida, sendo que os profissionais do sector passariam a receber “em troca apenas palavras de agradecimento ou uma doação”. É verdade que a grande maioria das pessoas que conheço (e aqui refiro-me à classe de profissionais não artistas), trabalha no sector muito por “amor à camisola”. Há um certo espírito missionário no pessoal da Cultura que muito me lembra o pessoal da Educação.

Afinal o que nos ensinou este tempo? A Cultura é ou não é um bem essencial para todas as pessoas? As decisões recentemente tomadas pelo governo dizem-nos que não: o programa Cultura para Todos deixou de ser uma prioridade e, em alguns casos, a verba será cortada em cerca de 70%, como aqui refere Hugo Cruz, criador e director artístico do Mexe – Encontro Internacional de Arte e Comunidade. Espero ansiosamente pelo debate da Acesso Cultura já no dia 8, que será em torno destas questões.

Pandemia dos Vírus Recorrentes

Existem vírus estruturais na nossa sociedade e pelo mundo fora. O racismo estrutural é um deles e a culpa também reside (muito!) nos sistemas educativos. Nos últimos dias o nome de George Floyd tem invadido as redes sociais: o homem negro de 46 anos foi assassinado por asfixia por um agente da polícia (Estados Unidos). Esta é mais uma morte que se junta a outras que têm acontecido nos últimos anos. Ontem o Instagram foi invadido por quadros negros sob a hashtag #blackouttuesday. Algumas entidades em Portugal aderiram ao movimento, nomeadamente: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, MAAT, Casa Museu Abel Salazar e as Galerias Municipais de Lisboa. Se esta tomada de posição é genuína ou não saberemos no futuro. No entanto não posso deixar de referir a publicação feita pelo Palácio Nacional da Ajuda no seu Facebook: a pintura de um homem negro escravizado ao lado de D. Pedro II, pessoa que usufruiu do trabalho escravo. Não gostei da publicação, confesso. Interpretei-a como mais uma forma de diminuição da pessoa negra.

Pandemia da Ausência

…de afetos. O tempo em que não pudemos estar com os nossos familiares foi longo e foi duro. Em muitos casos isso ainda se verifica. A ausência do abraço tem um grande peso. Há quem diga que tudo isto é uma questão de hábito, que não temos de andar a dar beijinhos a toda a gente; que a nossa postura depois disto vai mudar. Eu continuo a pensar no tempo que há-de vir em que vou novamente abraçar os meus amigos. Se há característica ou comportamento que não mudar é esse: o da afetividade.

Qual o peso deste isolamento para quem já tanto sofria de solidão? Quantos idosos temos em Portugal que, mesmo antes do vírus, não tinham nenhum familiar que se preocupasse com ele? Quais as repercussões do agravamento desta situação? Através de conversas por chat tenho sabido de algumas situações muito infelizes mas houve uma que me tocou em particular: a de uma senhora que ia todos os dias ao lar dar o almoço à mãe, pessoa muito idosa e doente. Com a situação do covid esta senhora ficou proibida de ir dar o almoço à mãe mesmo com todas as precauções possíveis e imaginárias. Embora falasse com a mãe por telefone todos os dias, esta questionava-a porque não a ia ver, sentia-se abandonada. Deixou de comer e rapidamente entrou num estado que a levou a falecer. O que mais me incomodou nesta história foi, por um lado, que aquela senhora morreu sentindo-se abandonada; por outro lado, porque não consigo imaginar a angústia da filha pelo impotente que se sentiu perante a situação.

…do brincar. Crianças e jovens ficaram confinados às suas casas, tal como todos nós. Os adolescentes, embora a custo, já têm maturidade para entender a necessidade da clausura. As crianças não. Brincar é a atividade mais importante para o seu desenvolvimento a todos os níveis e nomeio aqui alguns factos: através do faz de conta a criança interpreta papéis importantes que irão promover o seu desenvolvimento social; a autoconfiança é gerada na tomada de decisões; o envolvimento com os seus pares é fundamental para a criação da capacidade de resiliência; a gestão da frustração de uma dada brincadeira fornece à criança aquilo que são as ferramentas essenciais para o seu amadurecimento emocional, cognitivo; é brincando que as crianças testam as suas capacidades físicas, se conhecem e se vêm como semelhantes. É quando penso nestas coisas que me vêm à cabeça muitas figuras da nossa sociedade: fez-lhes falta brincar mais.

Tendo tudo isto em conta, e relembrando que a Direção Geral de Saúde suavizou as normas de distanciamento entre crianças pergunto: o que é que se passa em Arcos de Valdevez?! Como é que uma autarquia pode considerar que hélices na cabeça para as crianças estarem com um metro e vinte de distância entre si é “um grande elemento de originalidade e cariz pedagógico”?!

Pandemia das Novas Espécies Invasoras

Se no início do confinamento surgiram notícias de esperança como o caso dos golfinhos em Veneza (que afinal não era bem assim), ou a queda das emissões de CO2, agora é cada vez mais visível um dos efeitos da pandemia. Seguindo a terminologia do livro Plasticus Maritimus – Uma Espécie Invasora de Ana Pêgo, editado pelo Planeta Tangerina, eis que surge uma nova espécie para contribuir para a poluição mundial: as máscaras descartáveis e as luvas de borracha.

Foto: Ana Sofia Nunes/ Máscara no areal da Praia da Fonte da Telha

Muitas fotografias têm circulado pelas redes sociais de máscaras e luvas no chão, nas praias, no mar. A falta de civismo mantém-se ao tempo antes do Covid. As pessoas simplesmente não querem saber e por isso, esta é uma prática que a meu ver devia mesmo ser multada, não basta um apelo, da mesma forma que se deve priorizar o uso de máscaras de tecido, pela sua reutilização. Se ao fim de um certo número de lavagens já não for segura na sua função de proteção tirem-lhes os elásticos e…parabéns! Ganharam um pano para limpar o pó!

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

2 opiniões sobre “Pandemias

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