Pela democracia.

Anne Applebaum é uma jornalista que escreve este livro com uma visão macro daquilo que se passa na política internacional. O Crepúsculo da Democracia é, no fundo, um alerta para todos aqueles que acreditam na vida assente na política democrática.

A autora começa por nos contar qual era a lista de convidados que ela o marido tinham para a festa de passagem de ano de há 20 anos. Todos os convidados, incluindo Anne e o marido, eram daquilo que se considera a ala direita democrática do espectro político. É interessante a análise que faz, contando as transformações que se deram desde essa época até aos dias de hoje, em que metade da lista de convidados se voltou para o populismo e o discurso extremista, atraídos para a visão de uma sociedade sob um regime ditatorial.

A transição entre regimes ditatoriais e regimes democráticos é cíclica, coisa que, de forma geral, eu já sabia. No entanto, a análise que Anne faz é de uma lucidez extrema, sem nunca ignorar o que a História nos vai ensinando (ou não fosse ela uma historiadora de referência). Atualmente, estamos a assistir à ascensão de movimentos extremistas um pouco por toda a Europa. Na verdade, este tipo de visão sobre as sociedades faz com que haja uma perda de respeito pela individualidade de cada um, chegando mesmo a ir contra os direitos humanos, como é o caso do que se está a passar na Hungria em relação à comunidade LGBTI. Aos poucos, vai-se criminalizado a homossexualidade.

As pessoas que seguem estes movimentos políticos e que, de alguma forma desempenham neles um papel relevante, não são motivadas por uma ideologia mas sim pela ambição de poder, tendo, muitas vezes, ações que são contraditórias ou usando argumentos que nem representam a realidade. Vejamos o seguinte exemplo dado pela autora: a imigração não é um problema real na Hungria. No entanto, é com frequência que esta questão é usada em discursos, provocando o pânico junto da população sob o mote de que as comunidades do médio oriente pretendem invadir o país e roubar emprego aos nacionais. A autora também nos dá o exemplo de alguém que apoia um partido homofóbico mas tem um filho homossexual. O mesmo acontece por cá quando, um casal que apoia um partido racista adota uma criança negra…mas quanto a este último exemplo, a análise poderá ser bem mais complexa, ligada a questões de colonialidade.

Uma das passagens que mais me surpreendeu neste livro foi relativo ao Brexit e à postura de Boris Johnson. Anne conhece-o pessoalmente, inclusive o marido era colega dele, ambos frequentavam o mesmo clube. Ora, Boris nunca acreditou que o Brexit fosse possível. No entanto, devido à narrativa saudosista da grande nação imperial inglesa (um mundo onde a Inglaterra ditava as regras), as pessoas voltaram-se para o tipo de nacionalismo narcisista que fez com que o Reino Unido saísse da União Europeia. No fundo, tudo se remeteu a uma questão de identidade nacional com repercussões que levaram a quatro anos de negociações, de forma a se conseguir obter um acordo.

Esta questão da narrativa histórica tem estado muito presente no debate português. Há sem dúvida uma presença de vozes da sociedade civil que pretendem fazer um “restauro da nação”, há uma busca pelo sentimento nostálgico. Esses “nostálgicos restauradores” são na verdade produtores de mitos que não querem simplesmente aprender com o passado. Segundo Boym, citado pela autora, querem “reconstruir a casa perdida e preencher as lacunas da memória”. Mais: “não estão interessados num passado com nuances, num mundo em que os grandes líderes eram homens com defeitos e as vitórias militares famosas tinham efeitos colaterais mortíferos. Não reconhecem que o passado pode ter tidos os seus inconvenientes”. É-me impossível dissociar estas questões com o que passa relativamente à narrativa em torno da história colonial portuguesa.

Os extremistas precisam sempre de culpar alguém – é esse um dos ingredientes para se caminhar para um regime autocrático. Culpam-se os imigrantes, os estrangeiros, as elites, a Europa, as pessoas que recebem subsídios do estado, mostra-se a fúria contra a corrupção. Trata-se de uma narrativa simplista que entra facilmente na mente das pessoas. Afinal, “ele até tem razão no que diz”. A democracia está em perigo quando a população começa a criar empatia com este tipo de discurso.

Anne refere que todos temos uma predisposição autoritária, que se assemelha a uma mentalidade simplista: “as pessoas são amiúde atraídas pelas ideias autoritárias porque a complexidade as incomoda. Não gostam de divisões. Preferem a unidade. Uma súbita investida de diversidade – diversidade de opiniões, diversidade de experiências – deixa-as irritadas. Por isso, procuram soluções numa nova linguagem política que as faça sentir mais confortáveis e seguras”. A democracia é complexa e pode mesmo ser assustadora. Viver num mundo assolado por uma pandemia, em que há perda de liberdades, com as crescentes vozes do desacordo, provoca um ruído muitas vezes incómodo, pelo que “estes aspetos podem irritar aqueles que preferem viver numa sociedade ligada por uma única narrativa”.

Devo confessar o meu descontentamento relativamente ao que observo quer nas redes sociais, quer na comunicação social. Há um proliferar não só de notícias falsas mas também de títulos de notícias que servem apenas para empolar a raiva de quem é apologista da narrativa única. Há uns dias, apareceu no meu feed do Facebook uma notícia que falava que a diversidade tinha chegado aos emojis e que já existia um símbolo para um homem grávido. Este tipo de abordagem, sem qualquer pedagogia, provocou uma avalanche de comentários do mais desumano que já vi, num verdadeiro atentado às pessoas trans. Penso que não é esta a forma mais correta de abordar questões tão complexas como a transsexualidade, e por isso, culpo muito a comunicação social. O mesmo acontece com vários outros assuntos. Vivemos numa época em que vale tudo para obter o click ou provocar a emoção forte, sem qualquer tipo de intenção informativa ou educativa.

A história é circular – a democracia não é eterna. Além disso, dá imenso trabalho viver num regime democrático onde existe uma multiplicidade de opiniões e visões sobre o mesmo assunto. No entanto, da mesma forma que enriquecemos com a diversidade que existe na Natureza, acredito que a diversidade que existe na humanidade serve, precisamente, para tornar a nossa experiência de vida mais completa e abrangente. Acredito na liberdade sob a máxima de que cada um pode viver a sua vida de acordo com os seus ideais sem que se prejudique a si mesmo nem aos outros. Acredito que é através da democracia que as sociedades e as pessoas que as compõem podem fazer do planeta um bom lugar para se viver.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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