Escola online… outra vez.

Ontem começou mais uma temporada daquilo que, na essência, é tudo menos Escola. A Escola é para se viver com o corpo, com todos os sentidos possíveis, em comunhão com os que dela fazem parte. No entanto, tendo em conta as circunstâncias, compreendo esta tomada de decisão. Apenas lamento a azáfama em que os professores têm estado para preparar mais uma fase do ano letivo em modo digital, da mesma forma que partilho da angústia de muitos pais que se vêm sem mãos a medir para conseguirem teletrabalhar e dar apoio aos filhos.

É tendo em conta estas circunstâncias que os tempos letivos não presenciais têm forçosamente de ser diferentes, da mesma forma que os modos de trabalhar os conteúdos curriculares também não podem ser iguais ao que se pratica no ensino presencial.

Sobretudo no caso das crianças mais pequenas, pois é a realidade que melhor conheço, ainda são muito poucos os exemplos, no nosso país, de práticas pedagógicas diferenciadas: práticas que colocam a criança no centro da sua aprendizagem, que a vêm como um agente ativo nas suas descobertas e na sua construção de conhecimentos – no fundo na sua autoconstrução como pessoa e cidadã ativa.

No meio de toda esta confusão de passar o ensino para o formato online, e devido à concentração que é exigida às crianças para se focarem no computador ou na televisão (no caso da teleescola), o meu apelo é este: caros professores, façam das vivências das crianças (e dos jovens) o mote para as suas aprendizagens.

Afinal, em que contextos vivem os vossos alunos? Moram em que tipo de casas? Têm quintal, varanda ou janelas? Possuem animais de estimação? Penso que através do quotidiano das crianças é possível criar projetos que proporcionem as aprendizagens exigidas nos currículos, mas existe um grande problema: grande parte dos professores não conhece a metodologia de trabalho de projeto. Se conhece, não a pratica.

Quando trabalhava como educadora, uma das coisas mais importantes do meu dia a dia era escutar as crianças. Através da escuta e da forma como os diálogos surgiam, nasciam projetos que partiam dos seus interesses. Estes projetos podiam ser individuais ou coletivos; quando eram coletivos, todos os participantes tinham tarefas relacionadas com pesquisas, numa fase inicial. Os pais eram chamados a dar o seu contributo quer nas pesquisas, quer naquilo que eram as suas áreas do conhecimento.

Se uma criança gosta de dinossauros, porque não fazer um projeto sobre tipos de dinossauros? Pesquisar hábitos alimentares desses animais já extintos, bem como desenhá-los, criar cenários dos seus habitats naturais com terra, folhas e paus, ou mesmo criar histórias inventadas tendo os dinossauros como personagens, são formas de trabalhar o currículo: a matemática, a escrita, o estudo do meio, as expressões e a criação artística estão presentes em tudo isto.

É trabalhoso, é verdade. O método de avaliação estes projetos não é tão simples como corrigir uma ficha, mas fazer uma ficha não proporciona as aprendizagens que um projeto destes potencia. A capacidade de pesquisa e de organização do pensamento quando se faz um projeto assim são fomentadas de forma a que a criança crie competências de pensamento crítico e social, que lhe serão úteis na sua vida adulta. São estas competências que formam adultos que sabem gerir o seu dia a dia, que se sabem desenvencilhar das dificuldades, e que sabem lidar melhor com a frustração.

Acho, sinceramente, que apesar de tudo o que o ensino online tem de mau, deve haver um esforço coletivo por tornar esta experiência em algo positivo. Que sirva para olhar para as crianças de forma diferente e que, quando de ser o regresso às escolas, as práticas mudem. Não há outra via a não ser esta: sair da zona de conforto.

Porque não desafiar os próprios pais para, num passeio higiénico com as suas crianças, fotografarem o que viram, fazerem um relatório do seu passeio, descobrir como se chama a árvore que está ao pé de casa, qual a sua origem, a sua história? Há que tirar mais partido do exterior, colocar em prática as etapas do método científico: partir da observação para formular um problema ou afirmação. Daqui, a criança parte para um processo de descobertas e aprendizagens.

E se um dia destes o TPC fosse fazer uma receita de panquecas? Ou um prato de massa? Quais as competências que uma criança ganha e as aprendizagens que faz ao pesar/medir ingredientes, juntá-los, cozinhá-los e ainda ter o proveito do seu trabalho?

Anseio por uma Escola que efetivamente apoia as crianças a viver em sociedade; uma Escola que é, em si mesma, uma sociedade. Uma Escola onde as crianças têm voz ativa, participação democrática. É essa a escola que quero para a minha criança e para todas as outras.

Atualmente, centenas de museus em todo o mundo colocaram as suas coleções em formato digital; podemos visitar museus que estão do outro lado do mundo. Porque não usar isso para trabalhar com as crianças de forma diferente?

Deixo aqui alguns recursos que podem ser úteis para a criação de projetos:

Centro Ciência Viva de Estremoz

Visita virtual no Museu da Música Mecânica

Programação digital do Museu de Lisboa

Materiais didáticos e recursos educativos para professores do Museu Gulbenkian

Visita virtual no Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Recursos e propostas do Plano Nacional das Artes

O Museu de Arte Africana Contemporânea de Al Maaden no separador da Educação tem alguns webinars disponíveis.

Memorial do Genocídio Kigali

Exposição virtual no Museu Nacional da China

Coleções digitais do Museu de Belas Artes do Chile

Coleções digitais do Museu Nacional da Dinamarca

Tour virtual ao Campo de Concentração de Auschwitz

O Museu Nacional da Indonésia disponibiliza imagens de alguns objetos das suas coleções.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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