Afinal o mundo não é uma ervilha… é um quadrado

Esta semana vi o filme O Quadrado de Ruben Östlund. Trata-se de um filme que retrata uma série de questões relacionadas com museus, a arte contemporânea, as desigualdades sociais e as relações de poder. Não sou crítica de filmes mas dada a forma como este me tocou consigo compreender porque venceu a Palma de Ouro na 70ª edição do Festival de Cannes.

Museus, Arte Contemporânea e Linguagem (in)acessível

Neste filme, o curador de um conceituado museu de Estocolmo é entrevistado por uma jornalista acerca da descrição de uma “exposição/não exposição” que esteve presente na programação. A jornalista desculpa-se da sua posição de leiga citando a apresentação da obra e pedindo uma “tradução” dessa mesma apresentação. O próprio curador tem dificuldade em “traduzir” o que o artista quis dizer com aquela mensagem. Esta cena, por um lado provocou-me um riso irónico, por outro, um sentimento de familiaridade. Sendo eu mediadora cultural, uma das minhas funções é tornar as exposições/os objetos/os assuntos que os museus albergam, acessíveis. Isto implica da minha parte o uso de linguagem clara, simples (mas não simplista) durante as visitas que realizo, fazendo um esforço por transmitir, de forma a que todas as pessoas compreendam (independentemente dos seus estudos, origens socio-económicas e culturais), algumas informações que a equipa educativa e eu consideramos fundamentais de forma a contribuir para a construção de significado para quem nela participa.

No entanto, e apesar dos museus fazerem parte do meu mundo profissional, existem alguns que mantêm, ainda hoje, uma forma de comunicar quase cifrada, em que por vezes a vontade que tenho é a de chegar à receção e pedir um dicionário. Curiosamente, isto acontece-me com mais frequência em museus de arte contemporânea.

Quando analiso os vários núcleos de pessoas com quem me relaciono, uma coisa é comum: a Arte Contemporânea é vista como algo sem sentido, “uns rabiscos que qualquer um faz”. Lamento que tal aconteça. Penso que este movimento artístico tem um grande potencial para alertar mentes e convocar as pessoas à participação cívica, pois tantas vezes é esta a arte que nos traz reflexão sobre problemas da contemporaneidade.

Há que desconstruir a Arte Contemporânea para que deixe de ser vista como uma coisa incompreensível. Esta desconstrução está, em parte, nas mãos dos artistas, mas é sobretudo o papel dos museus que a apresentam às pessoas. Há que pensar em textos de parede ou em sinopses de apresentação mais simples e compreensíveis, tentando fazer a ponte com o quotidiano das populações.

O Quadrado

Imagem: instalação O Quadrado, imagem do filme com o mesmo nome

O Quadrado é o nome da instalação que por sua vez dá nome ao filme. Trata-se de um quadrado colocado no chão da praça em frente ao museu, onde foi encaixada uma fita de luzes led. Este quadrado é visto como um santuário, onde quem nele está tem iguais direitos e obrigações. Como se fosse o planeta que habitamos estão a ver? Este mundo em que vivemos. Só que, como bem sabemos, a realidade não é essa. Se há coisa que esta pandemia veio revelar foi o pior da humanidade: assassinatos com motivações racistas, um crescimento dos movimentos fascistas, ameaças a deputados e ativistas antirracistas, o egoísmo, a falta de empatia e de compaixão. Lamento se a minha visão é pessimista mas ultimamente ando chocada com o que vou vendo nas redes sociais: ingenuidade da minha parte, não tinha noção de como se regozijam tantas pessoas por, o nome do ditador que assombrou o país no século passado, andar hoje em dia nas bocas do mundo, como se se tratasse de uma evocação sagrada.

A instalação do Quadrado serve assim para provocar (no filme e a quem o vê) uma reflexão em relação às relações de poder e às desigualdades sociais. Torna-se, no entanto, interessante, observar que o discurso do curador (humilde, humanista) não é compatível com as suas ações…ainda que, ao longo da ação, se possa observar uma transformação. É também interessante observar o seu raciocínio face às decisões que tem de tomar para não “provocar ondas” ou para evitar debate político.

Tudo nesta vida é político, ideológico. Também a campanha de marketing daquele museu do filme o é, tal como acontece com os nossos museus e as nossas instituições culturais em geral. Desengane-se de quem pensa o contrário. Saber ler nas entrelinhas é meio caminho andado para que exista pensamento crítico. E cabeças pensantes precisam-se. É por isso que, quando uma figura pública se associa a um partido de extrema-direita, mostra publicamente que está em concordância com ele, mesmo que não o expresse verbalmente…mesmo que afirme que só estava a prestar um serviço.

Leram nas entrelinhas?

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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