Imagens reais e primeira infância

Antes de sabermos ler o código escrito aprendemos a ler o mundo à nossa volta: ele é feito de imagens. A forma como vamos percecionando o que nos rodeia vai se modificando ao longo do tempo. A leitura de imagens reais desde os primeiros meses torna-se assim uma atividade fundamental tanto para o desenvolvimento da própria percepção visual como também para a construção do eu em relação ao meio envolvente.

Para Wallon, o recém-nascido situa-se no estádio impulsivo, um estádio de desenvolvimento que se caracteriza por movimentos e reflexos que são simples descargas de energia muscular, espasmos descoordenados. No entanto, esta ação já é portadora de “uma carga afetiva que balanceia entre o bem e o mal estar” (Fonseca 2005, 75). Nesta fase em que “o outro é um construtor do eu”, e daí o papel crucial da vinculação, a visão não está ainda bem organizada, embora o recém-nascido reconheça a face do progenitor e os objetos familiares. A focagem e a fixação são vagas e, ainda que não haja diferenciação entre contrastes de cores ou formas complexas, é natural que o recém-nascido se sinta atraído por elas.

O desenvolvimento dos bebés sempre me fascinou. Num espaço de tempo tão curto observamos uma evolução exponencial a todos os níveis. Quanto ao desenvolvimento que a visão tem em particular, as mudanças são drásticas e em menos de um ano. Se por volta dos três meses a percepção visual já envolve mais do que simplesmente olhar para alguma pessoa ou objeto (porque os olhos têm de manter a imagem estável para que o cérebro a registe e integre), é por volta dos seis meses que esta percepção passa a denominar-se, segundo Ayres, um sistema visuo-motor. Este sistema, cujo funcionamento depende de um desenvolvimento em paralelo da visão e da motricidade, faz com que aquilo que o bebé vê passe a fazer “sentido com o que ele sente, e o que ele sente com o que ele mexe” (Fonseca 2005, 529). Por volta dos oito meses começam a surgir os primeiros vestígios de auto-conceito, e desta forma, os primeiros passos para a sua independência.

Porquê imagens reais?

Criar ficheiros de imagens reais é uma atividade acessível que acaba por ser uma parte importante para o conhecimento do mundo e uma ponte para a literacia. O bebé, ao ver as imagens, está na realidade a fazer o seu primeiro exercício de leitura.

Se por um lado este tipo de material pedagógico ajuda a entender qual o sentido da leitura (como quando folheamos um livro ou um jornal), também podemos desde cedo fomentar o contacto com imagens diferentes do nosso quotidiano. Estes ficheiros também podem ser uma ferramenta pedagógica para a diversidade. Vivemos numa sociedade em que uma imagem valerá mais que mil palavras, pelo que, cada vez mais, não podemos ignorar o papel fundamental da cultural visual na educação e na desconstrução de preconceitos, algo fundamental para a criação de uma sociedade mais tolerante e para a formação de pessoas mais empáticas.

O papel do adulto como comentador das imagens torna-se também fundamental para o desenvolvimento da aquisição da linguagem por parte do bebé. Descrever aquilo que estamos a observar também se poderá transformar numa história.

Assim, é no contacto com o real que o bebé começa a compreender também qual a sua posição no mundo, à medida que vai desenvolvendo a sua autonomia. Visto que os “bebés e crianças até aos três anos aprendem com todo o seu corpo e todos os seus sentidos” (Post e Hohmann 2004, 23), a visão, que permite observar as imagens, em conjunto com a audição, que permite ouvir os comentários que o adulto vai fazendo acerca do que está a ser visto, torna-se um exercício complexo para o bebé. Se entre as imagens fornecidas misturarmos fotografias do próprio bebé criamos também uma ponte para a distinção do “eu” entre os outros.

Estes ficheiros podem ser organizados com vários temas: pessoas, animais, alimentos, objetos do quotidiano ou não… as possibilidades são imensas e as aprendizagens também!

Referências

Fonseca, Vitor da. 2005. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Âncora Editora.

Post, Jacalyn e Hohmann, Mary. 2004. Educação de bebés em infantários – cuidados e primeiras aprendizagens. Serviço de Educação e Bolsas – Fundação Calouste Gulbenkian.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

2 opiniões sobre “Imagens reais e primeira infância

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