Livros? Desde sempre.

Algumas amigas que foram mães recentemente têm-me perguntado isto: a partir de que idade é que devemos começar a ler para os bebés? A minha resposta é esta: desde sempre.

O D. ouve histórias desde o útero. Histórias inventadas por mim, relatos do dia, pensamentos e devaneios que com ele fui partilhando durante a gestação. Não se escapou também às sessões de Histórias para Bebés, pois dinamizei várias quando ele estava na minha barriga.

A primeira vez que lhe li uma história depois de nascer foi quando ele tinha 15 dias. A primeira vez que o sentei ao colo e lhe pus um livro à frente tinha um mês. Desde então os livros fazem parte da vida dele, seja através da rotina, em que lemos 2/3 histórias antes de ir dormir, seja porque espontaneamente vai buscar livros às estante e conta ele as histórias aos bonecos (tem agora quase 2 anos e meio).

D., aqui com dois meses. Livro “O meu primeiro Vivaldi” da Edicare.

Faço questão que veja que também leio. Por vezes a imagem de livros espalhados pela casa fora faz parte do nosso dia a dia. Fico sempre feliz pela curiosidade que ele tem em folhear aquilo que ando a ler, apesar da ausência de imagens e de apenas ver folhas inteiras só com letras. O mesmo acontece com os jornais: assim que me vê chegar com o jornal pede-me um também e acabo por lhe dar um antigo ou alguma secção que não me interesse tanto. Acontece com frequência sentar-se no sofá ao meu lado a ler o seu jornal enquanto eu leio o meu.

A associação imediata que podemos fazer do livro e da leitura prende-se com o código escrito. A curiosidade pelos jornais e o gosto pelos livros são meio caminho andado para o desenvolvimento da literacia no geral e da escrita e da leitura em particular. Mas isto é apenas o que está à superfície.

Quando uma criança pequena começa a explorar livros ilustrados sem a presença de um adulto, a primeira coisa que lê são as imagens. Quando há leitura em voz alta pelo adulto, essa narração poderá mais tarde ser recriada pela criança, proporcionando o desenvolvimento da linguagem, nomeadamente através de novo vocabulário. O recente estudo feito pela Gulbenkian sobre as práticas culturais dos portugueses veio dar conta de assimetrias no que diz respeito ao interesse pela leitura e a frequência a bibliotecas: “Na sua infância e adolescência, a maioria dos inquiridos não beneficiou de estímulos à leitura gerados em contexto familiar. Nunca os pais ou qualquer outro familiar os acompanharam a uma livraria (em 71% dos casos), a uma feira do livro (75%) ou a uma biblioteca (77%); nem tão-pouco lhes ofertaram um livro (47%) ou os deleitaram com a leitura de um livro de histórias (54%).”

Porque é que importa ler? Ler amplia a visão que temos do mundo e até de nós próprios. As histórias confrontam as crianças com situações muitas vezes complexas, tal como acontece aos adolescentes e aos adultos, e é nesse confronto/conflito interior, que por vezes temos de refletir sobre situações e atos, tomar decisões. Assim se fomenta o pensamento crítico e se contribui para a leitura do mundo – e o mundo está cada vez mais difícil de se ler e compreender.

Oficina “Nesta Casa moram livros” – janeiro 2022, Casa Fernando Pessoa. Foto: EGEAC/Casa Fernando Pessoa.

“Um livro é um tesouro” – eis uma frase que uma tia me disse quando eu tinha 15 anos. Nunca mais me esqueci. Desde então que sou uma fascinada pelos livros não só pelo seu conteúdo mas também pelo objeto. Ter livros em meu redor provoca-me uma sensação de paz. Irene Vallejo no seu livro O infinito num junco refere que “Demétrio deve ter compreendido que possuir livros é um exercício de equilíbrio sobre a corda bamba. Um esforço para unir os pedaços dispersos do Universo até formar um conjunto com sentido. Uma arquitetura harmoniosa perante o caos. Uma escultura na areia. O refúgio onde protegemos tudo aquilo que receamos esquecer. A memória do mundo. Um dique contra o tsunami do tempo” (p. 47).

Biblioteca pessoal de Fernando Pessoa – Casa Fernando Pessoa.

Os livros são como fragmentos de um espelho que reflete o mundo. Nem todos os livros têm a mesma importância ou relevância. Quando estou a estruturar sessões, sejam para bebés ou para crianças mais crescidas, importa-me averiguar a qualidade do texto e das imagens, caso as tenha. Faço por responder a perguntas como: o que pretendo com isto? Que mensagem transmite? Suscita perguntas? Quais?

É aqui que reside a importância da bibliodiversidade. Pergunto: quantos livros ilustrados conhecem cujas personagens principais sejam negras? Ou sejam meninas? E quantos estereótipos cabem num livro? Que histórias estão por ser contadas e que personagens estão por representar? A verdade é que nem todos os livros servem e por isso importa treinar criticamente o nosso olhar perante o conteúdo e a forma destes objetos. Neste sentido, penso que nos últimos anos as editoras em Portugal têm feito um trabalho notável, sobretudo se pensarmos em editoras independentes como a Planeta Tangerina ou a Pato Lógico.

Atelier do pensamento – Baobá livraria, janeiro 2022.

Devemos ter também presente o seguinte: os livros para infância são, muitas vezes, para nós, adultos. Já tenho sido interpelada várias vezes pelos livros que escolho para as sessões (e por isso é que os escolho) ou que escolho para o meu filho. A capacidade que um álbum ilustrado tem de expor determinados conceitos ou problemáticas é, muitas vezes, incrível. Fica o convite: ganhem uma tarde na secção infantil na biblioteca mais próxima da vossa zona, sozinhos ou acompanhados pelas crianças. Não têm de marcar hora, é gratuito e se fizerem o cartão de leitor ainda trazem livros emprestados!

O Dia Internacional do Livro Infantil comemora-se a 2 de abril. Este dia foi criado em 1967 para homenagear o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, dia em que o autor faria anos.

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