Entre rabiscos e garatujas – parte 2

Já tinha referido aqui que me suscita muito interesse o desenho na infância, sobretudo as manifestações gráficas dos primeiros anos de vida. Tenho dedicado algum tempo à observação desses momentos com o meu filho e tem sido fascinante descobrir algumas coisas à medida que vou fazendo leituras sobre o assunto.

Recentemente comecei a ler o livro “A Linha como Linguagem” de Alejandra Dubovik e Alejandra Cippitelli, editado pela Phorte Editora numa encomenda feita ao Projeto Kalambaka. No início é feita uma apresentação da pesquisa elaborada por Rhoda Kellogg que nos permite ter ferramentas-base para analisar desenhos, o que me deixou bastante tentada e acabei por fazê-lo com os desenhos do D..

No texto anterior com o mesmo título que este, fiz uma comparação entre os desenhos do D. e alguns exemplos de obras da corrente do Abstraccionismo Gestual. Os rabiscos que o D. fez nessa altura, e estamos a falar do passado mês de novembro, eram “traços realizados mediante movimento espontâneo, com ou sem movimento ocular” (p.16, Dubovik e Cippitelli). De acordo com Gisèle Calmy, este tipo de entretenimento gráfico concilia um duplo prazer, ao qual eu tinha chamado anteriormente um ato performativo. Esta conciliação entre o gesto e a marca não tem qualquer intenção de representatividade e a essa experiência Calmy chama de gesto gráfico (p.24).

Desenho do D. – novembro 2021
Desenho do D. – novembro 2021

Calmy considera que é “essencial vivenciar os movimentos no espaço antes de realizar a trajetória no papel” , pois é essa vivência que dá lugar ao nascimento do gesto gráfico (p.24). Ter lido isto deu ainda mais sentido ao ato performativo do D. ao traçar estes rabiscos na folha: o movimento acompanhava o traço. Neste sentido, também Loris Malaguzzy, referido no livro pelas autores, construiu a teoria dos prazeres gráficos. Esta teoria foi construída com base nos prazeres que se observa que a criança revela ao desenhar. Esses prazeres, são vários, podem-se manifestar em conjunto ou não, e distinguem-se da seguinte forma: motor e sinestésico, visual, tátil e auditivo, rítmico-temporal, cognoscitivo, de dominância espacial, de variação espacial, da repetição, alusivo, lúdico, hedonístico-sexual, construtivista, relacional, de fabular, simbólico, estético, emocional, comunicativo e de identidade (p. 26 e 27).

D. num momento de desenho – novembro de 2021

Ainda neste âmbito, as autoras do livro avançam com a nomenclatura de jogos gráficos a este tipo de exercício. Tratam-se de manifestações gráficas que “não são desenhos representativos, mas sim formas de figura com um grande valor expressivos, são traços intencionais significantes que requerem um espaço-suporte para serem realizados, e o domínio de uma ferramenta, também de habilidades motoras, como uma preensão digital palmar contínua para segurar a ferramenta, uma ação de ajuste olho-mão, para realizar o grafismo, e a construção de uma relação entre tempo e espaço que o que a ferramenta produz e a apreciação, observação do que é graficamente realizado” (p.28)

São várias as vezes em que o D. nos pede para desenhar com ele, e por norma pede-nos para desenhar objetos/figuras das quais gosta como carros, aviões ou cães. Tenho sempre alguma resistência em fazê-lo pois evito ao máximo dar-lhe modelos. Não quero restringir a sua imaginação e o seu traço. Tenho recorrido a imagens reais e às ilustrações dos livros que temos, previamente selecionados por mim – editoras/autores que têm qualidade quer ao nível gráfico quer o nível da narrativa.

No entanto, passado pouco tempo daqueles primeiros desenhos, talvez umas duas semanas, surpreendeu-nos:

Desenho do D. – dezembro 2021

Em muito pouco tempo começou a fazer figuras redondas às quais chama rodas. A figura que se encontra no canto inferior direito é um carro e claramente se distingue do resto ao nível da composição da forma – conseguimos observar uma estrutura com rodas. Foi interessante verificar, através das tabelas de rabiscos básicos criados por Rhoda Kellog, que o D. faz todas essas manifestações gráficas, desde as linhas diagonais, às onduladas, às linhas errantes abertas e linhas errantes envolventes, passando ainda pela circunferência múltipla. Também me despertou a atenção o facto de ter usado duas cores nesta produção, uma das quais o preto: o lápis preto já quase não existe dentro da variedade de 12 lápis que fazem parte da caixa de lápis. Quando lhe pergunto se vai escrever o nome, embora use todas as cores, já reparei que tem tendência a usar o preto quando se trata de algo que considera importante ou ao qual pretende dar destaque.

Uma das figuras que mais tem desenhado nos últimos tempos são carros, comboios e aviões. Também é com frequência que nos pede que façamos estes objetos com plasticina e uma das atividades que mais gosta é de moldar rodas.

Desenho do D. – dezembro 2021

Esta última imagem diz respeito a um momento em que nos disse que ia desenhar um comboio. Assim que vi a figura surgir fotografei – e ao mesmo tempo surpreendi-me. A forma como o comboio foi desenhado revela portas e janelas, descrição essa que faz questão de nos dar enquanto desenha (e confesso que me faz as delícias). Achei particularmente interessante a sua capacidade de traçar em formato de tabela, cruzando linhas perpendiculares e outras paralelas umas às outras. De acordo com os diagramas infantis apresentados por Rhoda Rellogg, considero que este desenho se enquandra perfeitamente nas figuras geométricas regulares, onde se cruzam o retângulo e o quadrado (p.20).

Desenho do D. -dezembro 2021

De todos os desenhos que o D. já fez, este (acima) foi certamente o que mais nos surpreendeu. Eu tinha guardado este cartão para ele desenhar, pertencia a um envelope (tenho gavetas cheias de materiais do género). Quando lho dei foi já com o intuito de lhe pedir para fazer um desenho e ele levou o pedido a sério. Acontece que neste momento estávamos em videochamada com uma das tias (que vive no estrangeiro). Ora, desde que fomos buscar a minha cunhada ao aeroporto no verão deste ano, para o D. todos os aviões vão ter com a “tita”. Desafiei-o a escrever o nome e, espontaneamente, foi escrevendo os nomes de todos: mamã, papã, D., tita, vó P., vô T., e por aí adiante. Cada vez que escrevia um nome, trocava de cor – podem observar os traços coloridos na parte superior do desenho (o traço a preto corresponde ao nome dele).

Foi então que a azul, desenhou um avião, fazendo uso das suas memórias – um avião com uma estrutura principal, asas e rodas. Enquanto ia desenhando dizia que o avião ia buscar a tia, e por isso mesmo, no canto inferior esquerdo, a castanho, vemos uma figura semelhante a uma aranha que corresponde à tia – uma circunferência com cerca de cinco braços. A este tipo de figura, Kellogg chama de mandala: “as mandalas constituem o elo fundamental da evolução progressiva. É uma estrutura que surge na arte infantil que é composta de várias estruturas lineares e de figuras geométricas dispostas em estruturas concêntricas” (p.22). Visto que eu tinha uma moldura disponível cá em casa, fui buscá-la, e juntos colocámos o desenho. Retirei um dos meus quadros da sala e coloquei o do D.. Não tenho dúvidas do grande significado que isto teve para ele, pois é comum observá-lo a olhar o desenho pendurado na parede. Por vezes vem-me dizer: “Mamã é o ‘vião da tita”.

Passados poucos dias deste episódio, o meu marido fez o esboço de uma planta. Rapidamente o D. lhe pediu o desenho e decidiu replicar o que o pai tinha feito, desenhando retângulos e quadrados. A precisão do seu traço deixou-me admirada: tenho alunos no 2º ano que não traçam desta forma.

Imitação do D. do desenho do pai – dezembro 2021

Todos estes episódios me têm feito refletir sobre várias questões: por um lado, o facto de o D. ter sempre os lápis e as folhas à disposição dele faz com que todos os dias queira desenhar. Também é verdade que o meio influencia: embora ultimamente eu não ande a elaborar nenhum trabalho, a verdade é que ele faz perguntas sobre os quadros que há cá em casa e geralmente são meus, do meu avô ou do meu pai, que é pintor (e o meu avô também era). Também aproveita sempre para pedir ao meu pai para lhe fazer desenhos sempre que está com ele. A postura do D. enquanto desenha é, muitas vezes, reflexo das nossas posturas quando desenhamos.

Um dia destes quando me pediu para desenhar um cão fui buscar uma agenda que tinham oferecido ao meu marido e que tem fotografias de vários cães. Desde esse dia que o pequeno de 2 anos vai buscar imagens para desenhar à vista e quando o faz, descreve o que está a fazer: vai nomeando as partes do corpo do cão e o resultado costuma ser um retângulo com patas (algo que ainda não consegui fotografar).

Este desenvolvimento gráfico que se deu em menos de um mês pode ser justificado pela prática e pelo meio. Se se trata de um aptidão não sei, pois o D. tem apenas 2 anos e isso pode mudar. Mas que nos surpreende quase todos os dias com os seus desenhos, lá isso não posso negar.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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