Uma espécie de crónica

Estávamos a meio do mês de janeiro de 2020 quando decidi comprar a agenda do ano. Quem me conhece sabe que sou da velha guarda: não me habituo à agenda do telemóvel, preciso de escrever no papel, de riscar o que foi anulado, de fazer um visto no que foi feito. Além disso iria acabar a licença de maternidade a 1 de abril. Precisava de me organizar. Mas voltar a trabalhar no dia 1 de abril foi de facto uma grande mentira.

“Há mais doenças a afectar a Humanidade do que humanidade a afetar pessoas”. Esta frase de Afonso Cruz no livro A Boneca de Kokoschka traduz bem aquilo que penso de 2020. Um pouco por todo o mundo fomos assistindo às várias doenças que deambulam por aí e a covid-19 é apenas uma delas: racismo, xenofobia, populismo, egoísmo, abuso de poder…

Acho que este ano foi esquizofrénico para a maioria das pessoas. As mazelas do embate que vivi já as curei: o confinamento deu-me cabo da cabeça, a verdade é essa. Mas voltar a estar a com a minha família nuclear, voltar a sair aos poucos, seja para um almoço ou uma ida ao teatro, fez com que recuperasse a sanidade e voltasse a sentir-me eu mesma.

Dentro da sua esquizofrenia este ano trouxe-me coisas muito boas: vi o meu filho crescer, passar de um bebé minúsculo a um bebé crescido que já anda de mão dada comigo, e que até tem algumas das minhas manias (enquanto anda gosta de cantarolar, é fã de comida indiana). Comecei a trabalhar em Educação Artística, um desejo que tinha há uns anos mas que por um motivo ou por outro, ainda não se tinha concretizado. Voltei a ler, embora não tenha lido tantos livros como gostaria. Criei este blog, fiz algumas parcerias, conheci pessoas incríveis (como a Joana da Filocriatividade e a Susana do Lugar Específico). Descobri em mim dotes de tesoureira. Voltei a fazer pilates. Comi sonhos feitos pela a minha avó no Natal.

Fui ver o espetáculo incrível de Christos Papadopoulos à Culturgest (a subtileza do movimento dos bailarinos em palco é qualquer coisa…), e a peça Fake no Teatro D. Maria II (emoções ao rubro!). Li pela primeira vez um livro do Afonso Cruz (como é que isto só aconteceu agora?!). Comecei a ver a série Borgen (para quem gosta de política) e vi a série Gambito de Dama (até eu fiquei com vontade de aprender a jogar xadrez!). A Antena 3 passou a estar gravada nas rádios de seleção do meu carro. A playlist mais tocada cá em casa foi a de Bossa Nova.

Resumindo: no fundo voltei a sentir esperança. Claro que agora já não me enganam e não vou depositar toda a fé do mundo em 2021 mas pelo menos acho que dentro do caos consegui estabelecer alguma ordem, viver momentos positivos. O mais positivo de tudo, confesso, é estarmos bem de saúde e é isso que vos desejo: saúde e amor para as vossas vidas.

E sim, já comprei a agenda de 2021. Comprei-a a medo, já há 2 meses atrás. Assim não acumulei tanta ansiedade.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: