O que cabe neste livro?

O jardim de Babaï de Mandana Sadat, Bruaá Editora

Os livros ganham significados diferentes consoante as nossas experiências de vida. Se antes este livro era para mim, sinónimo de diversidade e comunhão, hoje em dia, com as normas de isolamento social, a sua leitura ganha toda uma nova dimensão.

Uma das particularidades deste livro é estar escrito em português e em persa. Quando o lemos do início ao fim conhecemos a versão portuguesa. Quando chegamos ao fim conhecemos a versão persa e podemos reiniciar a sua leitura: do fim para o início. Isto deu-me que pensar no tempo antes do agora, e no tempo que será depois do agora. Sinto falta de coisas do tempo de antes. Ainda por cima hoje é Dia Internacional da Família e amanhã eu faço anos. Talvez isso me faça sentir as emoções de outra forma. Talvez seja também por andar muito introspetiva.

Neste jardim, ou neste livro, cabem todos os meninos do mundo. Babaï é um cordeiro que vivia nas montanhas desertas e, visto que ali não havia muita vida, aborrecia-se.

O aborrecimento. Ele acontece neste tempo de confinamento, nem que seja momentâneo. Para quebrar o aborrecimento há quem arrume a casa, há quem passe a ferro, há quem limpe o que já foi limpo. Por norma o meu bebé de seis meses não me deixa aborrecer mas quando isso acontece tenho tendência a cozinhar e a arrumar…e a inventar.

Babaï, para quebrar o aborrecimento, toma a decisão de criar um jardim.

Mas este jardim não é criado ao acaso: Babaï decide usar as sementes que o vento vai deixando no seu pêlo.

Quais as sementes que temos em nós? A verdade é que muitas vezes as ideias, as sementes, andam por aqui a pairar e acabamos por ignorá-las. Talvez este tempo seja um bom tempo para as semear. Segundo vi nas previsões para os próximos dias, o tempo vai melhorar. O tempo meteorológico. Sendo eu uma pessoa de sol, se esse tempo melhora o outro também irá melhorar.

Acontece que o jardim de Babaï é um sucesso e atrai imensos animais. Esta ideia de convívio remete-me de imediato aos ajuntamentos de verão que tanto adoro e que muito provavelmente não acontecerão.

O ser humano é um ser social. Qual o peso deste isolamento para todos nós? Que consequências terá sobretudo para as crianças às quais é pedido afastamento, distanciamento…?

Eu trabalho com pessoas, para pessoas. Estar junto é, para mim, uma fonte de vida.

Causa e consequência: semeio, rego, colho. Babaï semeou. O que estamos nós a semear neste tempo de paragem?

Confesso: anseio por um jardim como o de Babaï. Um tapete alegre e colorido onde convivem vários. Nós. Uma paisagem que, se tivesse som de fundo, seriam gargalhas.

O jardim de Babaï forma um lindo tapete persa. A versão persa fica para descobrirem por vocês.

Publicado por anasofianunes

Educadora, mediadora cultural e da leitura

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