Ser Siddhartha

“Podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria. Podemos encontrá-la, podemos vivê-la, podemos ganhar importância com ela, podemos fazer maravilhas com ela, mas não podemos comunicá-la e ensiná-la.” (Hermann Hesse em Siddhartha).

Regra geral gosto de fazer anos mas algo se deu na entrada nos 36: um embate, um baque, um tropeção, uma queda, um pirolito, um engasgo, um tombo, uma apneia, um soluço, uma nódoa negra, um espirro, um ataque de pânico.

Este invólucro ao qual chamo corpo, fez 36 anos. A alma, essa, é bem mais antiga. O meu pensamento deste aniversário, sem tirar nem pôr.

Ora, embora tenha comprado Siddhartha a um alfarrabista na Feira do Livro de Lisboa de há 2 anos, quis o destino que agora, à terceira vez que iniciei a sua leitura, fosse a vez em que as palavras de Hesse mais me fizeram sentido. Foi uma leitura muito refletida, com vários pontos de convergência.

Dei por mim, nos últimos tempos, a sentir o sufoco da correria, do querer fazer mais, do querer ser mais. E a análise que fiz, a conclusão a que cheguei, é que nada estava bem. Em tudo me sentia a falhar porque a tudo queria chegar.

Parei. Respirei. Dei-me conta que o tempo passado nas redes sociais, além de desperdiçado, é fonte de maleitas. Fiquei cansada da superficialidade. Todos buscamos algo mas essa busca pode ser viciante, aditiva. Afinal, o que é o sucesso? Como se mede o sucesso de alguém? Andamos sempre a correr, sempre a querer alcançar. O quê? Para quê? Para quem?

Parei. Respirei. Hesse, na voz de Siddhartha, ressoa em mim quando diz: “perseguindo o teu objetivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos”. A falta de tempos de pausa cega-nos. A multiplicidade de papéis sociais que vamos acumulando tem destas coisas.

Sentir a correria do dia a dia não significa que o nosso corpo não parou, mas sim que a cabeça não sossegou. Tive de reaprender a parar, tive de reaprender a priorizar. O tempo não existe e no entanto sentimo-lo a passar entre os dedos.

Siddhartha continuará comigo e sempre que a memória se dissipar, a ele recorrerei para que eu não me esqueça daquilo que mais importa: pensar, esperar, jejuar.

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