Comunicar património em instituições patrimoniais e culturais: uma proposta para a formação de profissionais de mediação e educação

Ana Sofia Nunes

Resumo

A articulação ente património, educação e cultura representa um exercício complexo que é cada vez mais urgente. O cruzamento destes três eixos deve contribuir para “(…) aproximar os bens e serviços da cultura dos quotidianos da população” (Gomes & Lourenço, 2009).

Assim, torna-se cada vez mais importante refletir e estruturar a função educativa das instituições de património e cultura em geral, nomeadamente os museus, teatros, centros culturais, bibliotecas, monumentos visitáveis, entre outros. Esta necessidade tem vindo a ser reforçada através dos estudos feitos por Teresa Duarte Martinho (2007 a 2013), Rui Gomes e Vanda Lourenço (2009).

Coloca-se a questão: como comunicar património? Em que consiste a mediação cultural? Recorrendo a Vieira e Vieira (2016), Caride (2016), Montpetit (2011), Ferreira (2016) e Silva (2007), pretendo criar um referencial teórico que suporte a prática pedagógica de quem trabalha em mediação e educação nos chamados serviços educativos, espaços onde a mediação enquanto ação educativa desempenha um papel fundamental. Importa também entender o serviço educativo como uma estrutura organizada, inserida na orgânica de uma entidade, cujo funcionamento é regular e que desenvolve acções dirigidas ao público em geral, tendo essas atividades uma intencionalidade pedagógica (Camacho, 2007).

É fundamental que estes profissionais possuam um perfil profissional e formação adequadas. Através de um questionário on-line, foram colocadas várias questões a mediadores culturais e a coordenadores de equipas educativas de 14 instituições portuguesas. O objetivo foi compreender a sua visão sobre a profissão, quais as principais dificuldades sentidas, necessidades de formação, requisitos em processos de recrutamento, entre outros.

Com base na análise de conteúdo dos questionários, propõe-se um perfil profissional e uma formação específica de 2º ciclo que abarque conhecimentos e proporcione o desenvolvimento de competências para quem trabalha nos serviços de educação dentro dos vários contextos existentes, respeitando as suas especificidades.

Palavras-chave: património, educação, mediação, formação

INTRODUÇÃO

Este trabalho procura compreender as potencialidades pedagógicas do património, como comunicá-lo e que perfil e formação devem ter os profissionais que desempenham funções na área da mediação e educação em instituições patrimoniais e culturais.

Decidiu-se assumir este conceito (instituições patrimoniais e culturais) partindo do ponto de vista de que tanto o património edificado ou imaterial, como os teatros, as companhias de bailado, os centros culturais, entre outros, possuem de igual forma um património a ser comunicado, interpretado, mediado. Efetivamente, é referido no Artigo 2º da Lei de Bases do Património Cultural de 2001 que “integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura, portadores de interesse cultural relevante, devem ser objeto de especial proteção e valorização” (Lei de Bases do Património Cultural, 2001).

Foi, assim, realizado um questionário a colaboradores e coordenadores de serviço educativo de 14 instituições portuguesas. Com base nas respostas obtidas propõe-se um perfil profissional e uma formação específica para os profissionais de mediação e educação. Essa matriz deverá proporionar a aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de competências para quem trabalha nos serviços de educação dentro dos vários contextos existentes, fazendo por respeitar as especificidades de cada contexto.

1. COMO COMUNICAR PATRIMÓNIO(S)? – A MEDIAÇÃO COMO PROCESSO PEDAGÓGICO EM SERVIÇO EDUCATIVO (SE)

“O património representa, de facto, sempre algo que corresponde à criação cultural que recebemos das gerações que nos antecederam. Daí que o conceito dinâmico de património obrigue a ligar o elemento criador da cultura à transmissão de uma herança que dá sentido à memória, como algo partilhado e vivido pela sociedade e pelos cidadãos” (Martins 2011, 31).

O património deve ser visto como um meio de coesão social, um promotor de cidadania, um instrumento de definição de identidade e consequentemente um motor de desenvolvimento das comunidades. De acordo com a Lei de Bases do Património Cultural (art. 2º 1), “integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização”[1].

É precisamente no âmbito da valorização que importa a forma como comunicamos e aproximamos o património das populações, promovendo-o como um veículo para a atenuação das desigualdades sociais. A instituições patrimoniais e culturais são “locais de emancipação da sociedade, fundadores de consciências críticas e agentes construtivos de mudanças nos vários campos do conhecimento e das expressões [o que] constitui o fundamento que justifica a atualização da sua função educativa” (Barriga 2007, 43).

Importa que o trabalho realizado nestas instituições seja feito com respeito pelo património que representa tendo sempre um olhar sobre as questões da contemporaneidade.


[1] Procuradoria Geral Distrital de Lisboa. Capturado a 5 de novembro de 2018 http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=844&tabela=leis

O cruzamento entre os domínios património, educação e cultura é algo complexo. A articulação entre estes três eixos deve contribuir para

“a) a criação de políticas que visam o desenvolvimento mais amplo e completo dos cidadãos – integrando a educação artística nos currículos do ensino regular; b) aproximar os bens e serviços da cultura dos quotidianos da população” (Gomes e Lourenço 2009, 69), promovendo assim o património e a cultura como espaços de promoção do exercício de cidadania. Através da mediação podem ser criadas estratégias de aproximação do património e da cultura às populações e meios para fomentar o espírito crítico face aos problemas da atualidade.

Podemos entender a mediação como uma prática social orientada para resolver conflitos, na medida em que nela se podem encontrar pontos de encontro entre as pessoas, os coletivos, as instituições (Caride 2016, 13). Do ponto de vista antropológico podemos dizer que mediar é traduzir, é “uma estratégia de  construção de pontes e trânsitos entre pessoas, diferentes pontos de vista e fronteiras culturais” (Vieira e Veira 2016, 27).

No contexto da mediação cultural, podemos considerar que esta ação cria, de facto, pontes entre os públicos e a instituição mediadora em si, seja esta um monumento, uma exposição ou mesmo uma peça de teatro. Essas ligações, sem o elemento catalisador (mediador), talvez nunca se estabelecessem, daí o seu papel fundamental. Desta forma, o mediador é alguém que vai facilitar a ligação entre ambos.

Não se pretende que mediar seja apenas informar ou uma transmissão de conhecimentos. A mediação é uma ação que deve incentivar à experiência e à construção de significados por parte do indivíduo na medida em que o mediador deve ser o agente que despoleta questões e possui uma escuta ativa. Mediar implica colocar o visitante no centro de toda a ação para que este possa construir significados: “la médiation s’insère entre faits mathiels et order symbolique, entre systèmes techniques et structures mentales” (Montpetit 2011, 221).

O mediador cultural enquanto agente educativo deverá contribuir para uma pedagogia dentro do âmbito da instituição onde desenvolve a sua prática e que essa mediação se projete e se faça sentir na vida quotidiana das pessoas e da sociedade, (Caride 2016, 21) com ações coesas e fundamentadas, favorecendo o desenvolvimento das poulações para uma maior coesão social. É no espaço da mediação que se cruzam “os referenciais em torno dos objetos com os referenciais do mundo interior do visitante, criando uma teia complexa que abre espaço para múltiplas relações novas” (Ferreira 2016, 301).

O cruzamento entre os domínios património, educação e cultura é algo complexo. A articulação entre estes três eixos deve contribuir para “a) a criação de políticas que visam o desenvolvimento mais amplo e completo dos cidadãos – integrando a educação artística nos currículos do ensino regular; b) aproximar os bens e serviços da cultura dos quotidianos da população” (Gomes e Lourenço 2009, 69), promovendo assim o património e a cultura como espaços de promoção do exercício de cidadania. Através da mediação podem ser criadas estratégias  de aproximação do património e da cultura às populações e meios para fomentar o espírito crítico face aos problemas da atualidade.

Podemos entender a mediação como uma prática social orientada para resolver conflitos, na medida em que nela se podem encontrar pontos de encontro entre as pessoas, os coletivos, as instituições (Caride 2016, 13). Do ponto de vista antropológico podemos dizer que mediar é traduzir, é “uma estratégia de  construção de pontes e trânsitos entre pessoas, diferentes pontos de vista e fronteiras culturais” (Vieira e Veira 2016, 27).

No contexto da mediação cultural, podemos considerar que esta ação cria, de facto, pontes entre os públicos e a instituição mediadora em si, seja esta um monumento, uma exposição ou mesmo uma peça de teatro. Essas ligações, sem o elemento catalisador (mediador), talvez nunca se estabelecessem, daí o seu papel fundamental. Desta forma, o mediador é alguém que vai facilitar a ligação entre ambos.

Não se pretende que mediar seja apenas informar ou uma transmissão de conhecimentos. A mediação é uma ação que deve incentivar à experiência e à construção de significados por parte do indivíduo na medida em que o mediador deve ser o agente que despoleta questões e possui uma escuta ativa. Mediar implica colocar o visitante no centro de toda a ação para que este possa construir significados: “la médiation s’insère entre faits mathiels et order symbolique, entre systèmes techniques et structures mentales” (Montpetit 2011, 221).

O mediador cultural enquanto agente educativo deverá contribuir para uma pedagogia dentro do âmbito da instituição onde desenvolve a sua prática e que essa mediação se projete e se faça sentir na vida quotidiana das pessoas e da sociedade, (Caride 2016, 21) com ações coesas e fundamentadas, favorecendo o desenvolvimento das poulações para uma maior coesão social. É no espaço da mediação que se cruzam “os referenciais em torno dos objetos com os referenciais do mundo interior do visitante, criando uma teia complexa que abre espaço para múltiplas relações novas” (Ferreira 2016, 301).

Através deste cruzamento podemos considerar que é estabelecida não só a construção de significados como também é proporcionado um caminho para novas aprendizagens. A aprendizagem é em si um processo de tranformação, pois qualquer aprendizagem produz uma (trans)formação (Vieira e Vieira 2016, 37). A mediação cultural torna-se assim um processo composto por várias estratégias que têm por objetivo não apenas a construção de significados por si só mas que essa construção proporcione uma transformação do eu, promovendo uma transformação do indivíduo.

De acordo com Susana Gomes da Silva, “aprender não é aceitar passivamente um conhecimento exterior, mas o processo ativo de construir significados que conferem um sentido ao mundo e, portanto, ao que se aprender” (Silva 2007, 61). A mediação cultural tem vindo a ocupar um lugar central nos serviços educativos (SE) das instituições de património e cultura, refletindo-se tanto na atitude dos mediadores culturais na sua prática como também nas formas de comunicação institucional. A prática de mediação também se pode ver refletida na estrutura de uma exposição, na mediação de um livro, no conteúdo de uma peça de teatro.

Como SE entende-se uma estrutura organizada, inserida na orgânica de uma entidade, cujo funcionamento é regular e que desenvolve acções dirigidas ao público, tendo essas atividades pressupostos predagógicos previamente definidos (Camacho 2007, 28-29).

Através do SE as instituições de património e de cultura, como os museus, galerias, palácios, centros culturais e outros, aproximam-se dos seus públicos, cruzando o lazer e a aprendizagem. Estes departamentos educativos têm vindo progressivamente a assumir o papel primordial de criar ligações e estabelecer a comunicação com as audiências, tendo um lugar privilegiado para a construção de saberes e o estabelecimento de relações entre a entidade em questão e o público que a visita (Barriga e Silva 2007, 10-11). É imprescindível que as organizações ligadas ao património e à cultura façam parte não apenas da vida escolar mas também da vida quotidiana das populações, inclusive no âmbito da aprendizagem ao longo da vida.

2. METODOLOGIA

De forma a conseguir dar resposta às questões que motivaram este trabalho, partiu-se do princípio que essas mesmas questões deveriam ser colocadas aos profissionais do terreno e que sentem (ou não) as dificuldades no seu dia-a-dia de trabalho: colaboradores e diretores/coordenadores de serviço educativo.

O questionário foi ccomposto por duas partes: 1) um conjunto de perguntas de apoio à caracterização sociográfica de todos os participantes (idade, genero, formação académica); 2) um conjunto de perguntas com duas abordagens específicas – uma para coordenadores/diretores e outra para colaboradores. Pretendia-se saber o que pensam quanto ao perfil do profissional de mediação e educação, às dificuldades e constrangimentos sentidos no exercício das funções e quais as áreas de estudo a incluir numa eventual formação especializada.

Lançado em formato on-line em 2015 este questionário esteve em funcionamento durante alguns meses. Foi divulgado através das redes sociais em grupos relacionados com património e museus, ficando aberto à participação de todo o território português.

3. COLABORADORES DE SERVIÇO EDUCATIVO – ALGUNS TÓPICOS

De um total de 14 questionários respondidos considerados válidos, 8 corresponderam a colaboradores e 6 a diretores/coordenadores de serviço. As suas idades variaram entre os 25 e os 59 anos, sendo que um dos participantes optou por não referir a idade.

Palácio Nacional da AjudaFundação Culturgest
Museu Coleção BerardoMuseu da Fundação Calouste Gulbenkian
Teatro Nacional de São CarlosTeatro Aveirense
Centro de Artes de SinesMuseu do Dinheiro
Castelo de São JorgeParques Sintra – Monte da Lua
Oceanário de LisboaMuseu Nacional de Arte Antiga
Fundação Millenium BCPMuseu (participação sem identificação)
Tabela 1 – Instituições participantes

Quanto às áreas de formação dos inquiridos, foram referidas as seguintes: História da Arte e do Património, Psicologia Educacional, Ecologia Humana, Sociologia, Ciências da Cultura, Arqueologia, Literatura, Arquitetura, História, História da Arte, Pintura, Psicologia e Biologia Marinha.

A participação no questionário foi feita totalmente por mulheres com uma predominância etária jovem, contando assim o intervalo dos 25 aos 34 anos com 7 pessoas. Quanto ao nível académico das participantes, 11 têm mestrado, verificando-se a tendência apresentada em estudos anteriores[2], sendo a posse de títulos académicos pós-graduados (pós-graduação, mestrado e doutoramento) cada vez maior.

No que diz respeito às questões colocadas aos colaboradores, das 8 inquiridas, 3 referem que no início das suas funções ninguém os contextualizou à instituição. A mesma falta de apoio por vezes também se verifica na elaboração das planificações, sendo que das 8 colaboradoras, 3 referem que não existe preparação do trabalho.

É interessante verificar que as inquiridas consideram-se preparadas para trabalhar com todos os tipos de público. No entanto, quando questionadas sobre qual o tipo de público com o qual sente mais dificuldade em trabalhar?, praticamente todas as participantes (exceto uma) manifestam as suas dificuldades: “adultos especializados (arte)”, “público escolar – ensino secundário”, “universitário”, “necessidades educativas especiais”, “portadores de deficiência”, “sénior e necessidades educativas especiais” e “famílias”. Quando questionadas porque motivo sentem essas dificuldades assumem: “falta de formação específica”, “não é o tipo de trabalho que gosto de fazer”, “falta de experiência”, “falta de interesse por parte do público”.

Também foram feitas referências à não valorização das capacidades de comunicação que são necessárias à função[3].

4. DEFINIR UM PERFIL PROFISSIONAL

É imprescindível definir um perfil para os profissionais mediação e educação. Este perfil pode começar por ser definido a partir da própria nomenclatura. Quando colocada a questão aos colaboradores de SE qual a terminologia que, no seu entender, melhor se adequa à função: mediador cultural ou educador cultural? Porque motivos?, as opiniões são praticamente consensuais, pois quase todos os colaboradores consideram que a terminologia “mediador cultural”é a mais correta. Apenas um dos inquiridos opta pela terminologia “educador cultural” e um outro prefere não escolher. Considera-se que esta terminologia pretende uma rutura com a educação formal.


[2] Martinho 2004, 2010 e 2013; Gomes e Lourenço 2009

[3] Na questão no exercício das suas funções, quais as tarefas em que se sente menos confiante? Por que razão? foram dadas respostas como: “Comunicar com grupos com deficiência porque me falta formação e preparação específica”; “Falar em público. Falta de formação/experiência em comunicação. Existe uma subvalorização relativa à importância da aprendizagem em comunicação”.

À questão que competências que devem fazer parte do perfil do profissional de Serviço Educativo, os doze inquiridos que deram a sua opinião referem não só uma listagem consistente de competências e características, como também a postura e a atitude que deve ser inerente a este profissional. De acordo com as opiniões dos participantes no estudo o (perfil) profissional de mediação cultural deve ter/ser:

– “capacidade de comunicação e relacionamento com o outro, empenho, dinamismo, criatividade, capacidade de improviso, escuta ativa, pedagogia”

– “(…) como princípio básico da sua prática a aprendizagem contínua (…)”

– “sensibilidade, capacidade de comunicação, domínio dos conteúdos, criatividade, empatia”

– “uma visão informada e crítica sobre a história do seu tempo”

– “(…) capaz de lidar com todo o tipo de grupos: várias idades, várias formações académicas e de vida, vários enquadramentos sociais…”

– “noções básicas: Pedagogia, Sociologia, Públicos, Artes Plásticas”

– “competências comportamentais: excelente capacidade de relacionamento interpessoal, excelente capacidade de comunicação, criatividade, proatividade”

– “criatividade, capacidade de adaptação à mudança, conhecimentos consistentes nas respetivas áreas, simpatia, bom comunicador, divertido, responsável, gosto pelo trabalho, assertivo”[4].

Destacam-se assim as capacidades ao nível da pedagogia, comunicação e criatividade.

5. PROPOSTA DE ESPECIALIZAÇÃO EM MEDIAÇÃO E EDUCAÇÃO EM INSTITUIÇÕES PATRIMONIAIS E CULTURAIS –  2º CICLO

Para a construção de uma proposta de formação especializada que seja credível e sólida pensou-se na criação de um tronco comum: um conjunto de seminários que seriam a base desta formação de nível superior. Entendeu-se que, tendo em conta a variedade das áreas de formação inicial dos participantes no estudo, seria lógico que a proposta de formação fosse um 2º ciclo onde todos poderiam colmatar as lacunas que sentem, acompanhando também a tendência que o processo de Bolonha veio trazer a Portugal através dos mestrados integrados. Esta proposta está pensada para estabelecer parcerias com instituições da zona de Lisboa, podendo ser adaptada.


[4] Respostas à questão que competências que devem fazer parte do perfil do profissional de Serviço Educativo?

Importou estruturar uma especialização que fosse ao encontro das opiniões recolhidas tanto por parte dos diretores/coordenadores como dos colaboradores, por forma a dar resposta ao desenvolvimento das competências que os diretores/coordenadores procuram e também para colmatar as dificuldades sentidas pelos colaboradores. Foi com base nas respostas obtidas nos questionários que se chegou a uma série de objetivos para esta proposta de formação, sendo eles:

– promover e clarificar a identidade da instituição onde desempenham funções e do património que esta alberga;
– relacionar as potencialidades do(s) património(s) com educação, mediação e cidadania;
– elaborar planos de ação educativa (ou projetos educativos);                                                                            
– criar parcerias de trabalho: com escolas, associações, a comunidade em geral, entre outros;
– planificar atividades pedagógicas mediante a missão da instituição e objetivos pedagógicos;
– saber criar e trabalhar com projetos;
– gerir projetos;
– estar atualizado quanto às políticas culturais que afetam diretamente a(s) instituição (instituições) onde desempenha funções;
– coordenar pessoas;
– comunicar de várias formas, com várias tipologias de público.
Tabela 2 – Objetivos da formação

Quanto à matriz da proposta de formação a sua base estrutural (tronco comum) será composta pelos Seminários Públicos e Pedagogia, Plano de Ação Educativa e Sociologia da Cultura, áreas de estudo inseridas nas áreas científicas de Mediação e Educação em Património Cultural (EMPC)[5] e de Sociologia da Cultura (SC). É verdade que os seminários de tronco comum aqui propostos são completamente interdependentes e complementares entre si. No entanto, por uma questão de organização de ideias, de conteúdos e de trabalhos a propor, foram considerados em separado.


[5] Seria importante criar esta área científica com a articulação entre Ministérios da Educação e da Cultura.

Unidades curricularesÁrea científicaTipoCréditosObservações
Públicos e Pedagogia  MEPC  Anual  12  Obrigatória
Plano de Ação Educativa  MEPC  Anual  12  Obrigatória
Sociologia da Cultura  SC  Anual  12  Obrigatória
Opção Livre I(várias)Semestral12A realizar no 1º semestre
Opção Livre II(várias)Semestral12A realizar no 2º semestre
Total60
Tabela 3 -Plano de Estudos 1º e 2º semestres
Unidades curricularesÁrea científica  Tipo  CréditosObservações
Seminário de Investigação  MEPC  Semestral  12O candidato terá de optar entre a elaboração da Dissertação ou Trabalho de Projeto e respetivo Seminário de Investigação ou o Estágio e o Relatório de Estágio
Dissertação ou Trabalho de Projeto  MEPC  Anual  48
EstágioMEPCSemestral12
Relatório de EstágioMEPCAnual48
Total60
Tabela 4 – 3º e 4º semestres

Os conteúdos dos seminários[6] propostos tiveram como base as necessidades referidas pelos inquiridos dos dois grupos. Seguem-se os objetivos e conteúdos para cada seminário de tronco comum.

Públicos e Pedagogia: compreender o que é o Património Cultural, as suas potencialidades e valores; criar parcerias com a comunidade; analisar situações de públicos com necessidades educativas especiais e questões relativas à acessibilidade; capacitar para trabalhar com os vários tipos de público ; conceitos: educação formal e não-formal, mediação, experiência, interpretação e aprendizagem ao longo da vida.

Plano de Ação Educativa: compreender como deve ser feita a estrutura do serviço de mediação e educação (serviço educativo) dentro da instituição e qual o seu papel;construir um plano de ação educativa e planificar de atividades; estruturar e analisar estudos de público; visitar diversos contextos de educação e mediação: teatros, museus, centros culturais, bibliotecas…[7]

Sociologia da Cultura: abordar as várias definições de cultura; conhecer as práticas culturais em diferentes perspetivas: criação/produção, difusão/distribuição e receção/consumo ;conhecer as políticas culturais existentes que afetam diretamente o seu trabalho; conhecer os estudos de públicos da cultura e relacionar cultura e economia.

De forma a respeitar a especificidade de contextos em que cada um trabalha e ainda tendo em conta as opiniões dadas nos questionários, considerou-se que a melhor forma de completar a base desta formação será com seminários opcionais, em que cada candidato poderá escolher consoante o que lhe for mais oportuno. A lista de opções que se apresenta é passível de ser adaptada a cada instituição de ensino superior:


[6] Para cada um dos seminários e das opções propostas foram definidos objetivos, conteúdos programátivos, critérios de avaliação e bibliografia recomendada. Recomenda-se a sua consulta na dissertação com o mesmo título deste trabalho disponível em http://hdl.handle.net/10451/25935

[7] Na questão seria importante, enquanto profissional de um Serviço Educativo (SE), ter o conhecimento de práticas realizadas noutros SE como teatros, bibliotecas, centros culturais entre outros?, a opinião é unânime: todos os concordam que é importante o conhecimento de outras práticas e partilha das mesmas.

História da Arte
Expressão Dramática e Dança
Expressão Musical
Expressão Plástica
Iniciação à Botânica – parceria com o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa
Iniciação à Zoologia – parceria com o Jardim Zoológico e com o Oceanário de Lisboa
Iniciação à Museologia
Iniciação à Museografia
Tabela 5 – Lista de optativas

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho pretendeu realçar o património como fator de desenvolvimento e cidadania. O património é, por si só, multi e interdisciplinar, um todo composto por várias partes que têm relação entre si. Como refere Amado Mendes “o património (material e imaterial, tangível e intangível) representa uma parte relevante da nossa cultura e da nossa história, pelo que deve merecer especial atenção como fator de identidade e reforço da memória” (Mendes 2013, 266-267).

Tornou-se o principal objeto de estudo deste trabalho a classe de profissionais de mediação e educação que colaboram com instituições patrimoniais e culturais. Diariamente são eles que têm a responsabilidade de comunicar os “patrimónios” com os quais trabalham e de lhes dar significado junto dos seus públicos, promovendo “valores y práticas que nos contruyan en uma ciudadanía activa, plural, consciente, solidaria, inclusiva e sensible (…)” (Caride 2016, 21).

Foi interessante comparar estes resultados com os estudos publicados por Martinho (2006 a 2013). Se antes esta ocupação profissional servia como ponte de passagem para outras áreas, hoje constata-se que no geral, quem trabalha neste setor é porque o faz intencionalmente e com gosto.

A análise dos questionários realizados foi fundamental para traçar um perfil profissional para os mediadores culturais e estruturar uma matriz de formação especializada para os mesmos, partindo das necessidades realçadas.

A matriz de formação ao nível do 2º ciclo apresentada é passível de ser adaptada a qualquer instituição de ensino superior, mediante as suas capacidades. Espera-se assim que este trabalho sirva de inspiração a outros, e que de facto se reconheça cada vez mais esta necessidade de formação especializada e de um reconhecimento dos mediadores culturais enquanto classe profissional imprescindível para a mediação entre património, educação e cultura.

REFERÊNCIAS

Barriga, Sara. (2007). Plano de Ação Educativa: alguns contributos para a sua elaboração. In Sara, Barriga; Silva, Susana Gomes da (Coords.) Serviços Educativos na Cultura (pp. 43-56). Lisboa: Setepés.

Barriga, Sara; Silva, Susana Gomes da (2007). Serviços Educativos na Cultura: Desenhar pontos de encontro. In Sara, Barriga; Silva, Susana Gomes da (Coords.) Serviços Educativos na Cultura (pp. 9-15). Lisboa: Setepés.

Camacho, Clarão Frayão, (2007). Serviços Educativos na Rede Portuguesa de Museus: Panorâmica e perspetivas. In Sara, Barriga; Silva, Susana Gomes da (Coords.) Serviços Educativos na Cultura (pp. 26-40). Lisboa: Setepés.

Campos, Tereza. (2002). A comunicar é que a gente se entende. In Ministério da Cultura (org.), Encontro Ver, Rever. Museus, Educação (pp. 13-15). Lisboa:. Ministério da Cultura.

Caride, José António. (2016). La mediación como pedagogia social: vielas realidades, nuevos retratos para la intervención social. In Vieira, Ricardo et. Al. (org.) Pedagogias da Mediação Intercultural e Intervenção Social (pp. 13-25). Edições Afrontamento.

Ferreira, Ines. (2016). Criatividade nos Museus – Espaços Entre e Elementos de Mediação. Caleidoscópio.

Gomes, Rui & Lourenço, Vanda. (2009). Democratização cultural e formação de públicos: inquérito aos “serviços educativos” em Portugal. Lisboa: Observatório de Atividades Culturais.

Martinho, Teresa Duarte. (2013). Apresentar a Arte. Estudo sobre Monitores de Visitas a Exposições. In Revista Análise Social 207, 422-444.

Martinho, Teresa Duarte. (2010). Trabalho no sector cultural – dois tópicos em foco: flexibilidade e regulação. In Novos Trilhos Culturais – Práticas e Políticas. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.

Martinho, Teresa Duarte. (2008). Os Municípios e o Emprego na Cultura. O Caso das Bibliotecas. In Observatório de Atividades Culturais 16, 68-74

Martinho, Teresa Duarte. (2007). A Dimensão Educativa dos Museus e Centros de Arte. In Observatório de Atividades Culturais 15, 73-82

Mendes, José Amado. (2013). Museus e Educação, Coleção Estudos do Património. Imprensa da Universidade de Coimbra.

Montpetit, Raymond (2011). “Médiation”. In Dictionnaire Encyclopédique de Muséologie. Armand Colin.

Lei n.º 107/2001, de 08 de Setembro. In Diário da República n.º 209, I Série-A, de 08-09-2001. (Estabelece as bases da política e do regime de proteção e valorização do património cultural) Recuperado de https://dre.pt/pesquisa/-/search/629790/details/maximized

Lourenço, Vanda. (2008). Formas de Participação Cultural. In Observatório de Atividades Culturais 16, 75-87

Silva, Susana Gomes da. (2007). Enquadramento teórico para uma prática educativa nos museus. In Sara, Barriga; Silva, Susana Gomes da (Coords.) Serviços Educativos na Cultura (pp. 57-66). Lisboa: Setepés.

Vieira, Ricado & Viera, Ana. (2016). Mediações Socioculturais: conceitos e contextos. In Vieira, Ricardo et. Al. (org.) Pedagogias da Mediação Intercultural e Intervenção Social (pp. 27-55). Edições Afrontamento.

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